
Unidade e Multiplicidade: o abismo entre olhares
O artigo explora o abismo entre as perspectivas de médicos e pacientes, destacando a necessidade de unir técnica e compaixão na prática médica. Enfatiza que a verdadeira relação médico-paciente deve integrar conhecimento científico e cuidado humanizado, essencial para enfrentar o sofrimento com coragem e ternura.
Autor: Carlos Antonio Moura
Data: 16 de setembro de 2025
Caro leitor,
Já parou para pensar no abismo que existe entre o olhar do paciente e o do médico? Para o médico, cada cena parece parte de uma multiplicidade repetida: mais um infarto, mais uma pneumonia, mais uma dor abdominal, mais uma suspeita de câncer. A rotina nos empurra a enxergar o sofrimento humano como uma estatística, como um padrão esperado dentro de um sistema de sinais, sintomas, exames e protocolos. Para o paciente, no entanto, nada disso é rotina. É inédito. É único. É, muitas vezes, o maior acontecimento de sua vida.
O pai que recebe o diagnóstico de uma doença crônica; a mãe que escuta a palavra “câncer” pela primeira vez; o jovem que descobre que não poderá seguir com o mesmo futuro que sonhou; o idoso que se vê fragilizado e dependente. Para todos eles, é como se o chão se rompesse. E diante desse abismo, eles nos procuram. Procuram em nós a abordagem técnica – estritamente necessária –, mas também alguém que seja capaz de sustentar o peso da verdade com firmeza e, ao mesmo tempo, com compaixão.
Técnica e Compaixão: Uma Unidade Indissociável
Longe de mim advogar que haveria uma dicotomia entre técnica e compaixão e, para quem acompanha as Newsletter, o CORC, o Canal do CORC no youtube ou meu instagram, tem plena consciência de que não consigo ver ambos dissociados, como que passíveis de serem praticados por um médico estritamente técnico ou um estritamente “humanístico”. Se um médico quer ser conhecido como Médico – com “M” maiúsculo –, ele obrigatoriamente tem que possuir, como numa união hipostática, técnica e compaixão.
É aqui que precisamos recuperar algo essencial: a unidade da relação médico-paciente. Unidade significa indivisível. Não é possível separar a ciência da ética, o conhecimento do cuidado, a técnica da presença humana. Da mesma forma, não é possível reduzir a prática médica a uma matemática fria, em que cada paciente é mais uma variável em um fluoxograma. Para muitos leitores que não me conhecem, pode parecer que estou clamando por um “humanismo” bonito, confortável e piegas. Se esse for seu caso, você ainda não entendeu! Longe de mim cair no engodo de uma “humanização”, que se limita a palavras bonitas e slogans vazios; a carinhos e afetação preocupados em sinalizar virtudes – para outros e/ou para o próprio ego – e sucumbir à covardia diante do sofrimento.
A verdadeira prática médica exige que assumamos, ao mesmo tempo, a coragem da verdade e a ternura da compaixão. A palavra latina con-fortare significa “dar força junto”. Não é enganar. Não é dourar a pílula. Não é disfarçar a realidade para torná-la palatável. É olhar para o paciente e dizer: “Sim, isso é grave; sim, isso vai doer; mas eu estarei aqui, com você, para atravessar essa realidade”. Esse é o coração do cuidado que, reconheço, nem todos os pacientes valorizam.
A Multiplicidade do Saber e a Unidade do Encontro Clínico
Na prática do raciocínio clínico, tantas vezes ensino que nosso conhecimento médico é uma multiplicidade. Multiplicidade de diagnósticos diferenciais, de hipóteses, de protocolos, de artigos publicados, de guidelines atualizados. Multiplicidade necessária, porque a realidade é complexa e exige esse entrelaçamento de informações. O repertório de casos é como um repertório de romances que ilustram diferentes histórias em distintas situações, tudo condensado na consciência do médico. Mas essa multiplicidade só se torna útil e verdadeira quando se ancora na unidade irrepetível do encontro clínico desta consciência única com o ser enfermo. Sem o paciente concreto, sem sua história única – não exclusivamente a famigerada história bio-psi-social, mas sobretudo a dos seus sinais e sintomas –, nossa multiplicidade é apenas um acúmulo vazio de folhas de currículo, títulos, papéis e prateleiras cheias de livros que não encontram carne e sangue onde se encarnar.
Por isso digo que cada consulta é, para nós, também um evento inédito, pois cada paciente é um universo na sua unicidade. E se perdermos a capacidade de enxergar que esse universo reside numa unicidade nos tornamos autômatos. Tornamo-nos políticos de saúde, sanitaristas-epidemiologistas, servidores de estatísticas e colecionadores de números. É nesse ponto que muitos médicos se afastam da vocação e emburrecem: porque deixam de enxergar o inédito tempo presente de cada momento; de cada avaliação.
Humildade e Grandeza na Medicina
A relação médico-paciente deve ser o espaço onde o nosso conhecimento, vasto e múltiplo, encontra sua finalidade. E, ao mesmo tempo, é nessa relação que recebemos de volta um alimento essencial: a consciência de nossa própria limitação. Somos limitados. Não temos todas as respostas. Não conseguimos curar todas as doenças. Não temos controle absoluto sobre a vida e a morte. Em meu livro O Despertar do tempo para a Eternidade dediquei o capítulo 8 a discutir o “Mistério da Unidade”. Hoje, lendo a mais recente obra do psicólogo Jordan Peterson, Nós que lutamos com Deus, me deparo com esse trecho que vem a calhar a essa Newsletter:
“Não há como a multiplicidade se tornar o centro de uma unidade, e não há percepção, muito menos estabilidade ou esperança, na ausência de unidade [...]. O ato de categorização é uma determinação de ordem – uma ordem que é necessária, mas também eternamente incompleta”.
É no reconhecimento dessa incompletude que encontramos a chave para a verdadeira grandeza da medicina. Essa humildade não é fraqueza. É preciso olhar para Nossa Senhora e enxergar no Fiat! o exemplo de humildade que se abriu ao Mistério; é preciso olhar para Jó, que diante do sofrimento não compreendido soube aceitar e confiar. Só assim poderemos realmente sustentar nossos pacientes, transformando diagnósticos e prescrições numa presença real – e alegre! – que dá sentido.
A medicina não é nem pode ser mero instrumento de acumulação de títulos, de publicações ou de méritos acadêmicos. O médico não pode ser reduzido a um aglomerado de “evidências”. Se nossa prática não nos aproxima da realidade concreta de cada pessoa – repito: não falo aqui no sentido “holístico”, mas sobretudo na análise de seus sinais e sintomas e particularidades patológicas – e se não nos conduz à busca sincera da verdade, ela se torna vazia. O chamado que recebemos é mais alto: é cuidar do paciente naquilo que ele é — um ser humano portador de um ineditismo, e, portanto, digno de todo nosso saber e de toda nossa compaixão.
Que possamos, assim, recuperar diariamente a consciência de que cada encontro clínico não é uma repetição banal, mas um acontecimento singular. Que nosso raciocínio clínico não seja apenas multiplicidade, mas que se enraíze na unidade da relação, relação essa que é Amor. Almejo que, ao final, possamos juntos — médicos e pacientes — aprender que é a humildade que nos permite subir a “escada de Jacó”, degrau por degrau, do humano ao divino, da ciência à sabedoria, da técnica à verdade maior.
Em resumo:
A medicina só cumpre sua missão quando a técnica e a compaixão se tornam uma só coisa — quando o saber múltiplo do médico se encontra com a unidade irrepetível de cada paciente. Cada diagnóstico é um exercício de humildade diante do Mistério e cada encontro clínico, um convite a ver o inédito que se revela em cada ser humano. A verdadeira grandeza médica nasce justamente dessa tensão fecunda entre ciência e presença, entre limite e transcendência.
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