
Debate entre os métodos PBL e o Tradicional
O debate entre PBL e método tradicional revela a tensão entre dois modos distinto de ver o ensino. Enquanto PBL defende o construtivismo aplicado à medicina, o modelo tradicional enfatiza a cooperação docente. Ambas as abordagens têm raízes em teorias pedagógicas, refletindo a involução do ensino médico.
Autor: Carlos Antonio Moura
Data: 07 de maio de 2026
Personagens:
PBL (Problem-Based Learning): um entusiasta da autonomia discente e do aprendizado ativo.
Tradicional: defensor da autoridade docente e da transmissão estruturada do conhecimento.
Cenário: Um auditório universitário. Ambos os métodos foram convidados para debater suas propostas pedagógicas diante de uma plateia composta por professores, alunos e gestores de escolas médicas.
PBL (chegando e se acomodando na cadeira central do palco, ao lado do Tradicional): Com licença. Sei que você ocupou esse espaço por séculos, mas os tempos mudaram. Acredito que chegou a hora de ceder lugar a um novo paradigma de aprendizagem. Desde 1969, quando fui implementado na McMaster University, venho trazendo uma proposta mais moderna e alinhada ao construtivismo. Howard S. Barrows, neurologista e educador, foi o principal nome por trás da minha criação. Inspirado nas teorias pedagógicas construtivistas e pragmáticas, Barrows acreditava que a educação deveria ser um processo ativo, no qual o estudante aprende a partir de problemas reais e contextualizados.
Tradicional: Você se orgulha disso? As pedagogias construtivistas e pragmáticas são modelos perniciosos. De um lado a ilusão de que o aluno deve ser o construtor do próprio saber, confundindo a posse da matéria prima com a capacidade de construção; doutro a ilusão de que os problemas é que determinam o saber, como se, ontologicamente, a patologia precedesse a fisiologia.
PBL: No meu modelo, o conhecimento não é transmitido, mas construído pelo aluno. Quem tem interesse em aprender não é o aluno? Quem poderia, então, melhor do que ele, saber os caminhos a trilhar?
Tradicional: Veja, você se ilude com a ideia de que acreditamos "transmitir" conhecimento. Você, com sua mentalidade da Era das Luzes, acha que acreditamos que o conhecimento migrava de uma cabeça a outra e que o aluno era visto como mero agente passivo do conhecimento. Se você conhecesse os livros De Magistro talvez não pensasse tanta besteira.
PBL: Lá vem você usar referências tradicionais para sustentar o tradicionalismo.
Tradicional: Sua ignorância é pedagógica. Nos livros que cito há uma defesa franca de que o conhecimento não é transmitido do professor ao aluno. Nos livros, tanto o De Magistro de Santo Agostinho quanto de São Tomás de Aquino (um do início e outro do final da idade média) o ensino é definido como uma cooperação entre aluno e professor... São Tomás descreve que “a ciência preexiste no aprendiz em potência, não somente passiva, mas ativa [...]. Assim, como há dois modos de sarar – um pela ação da natureza somente e outro da natureza com auxílio de remédios –, há também dois modos de adquirir conhecimento: um quando a razão natural chega por si mesma ao conhecimento das coisas ignoradas – a ‘descoberta’ – e, outro, quando alguém auxilia externamente a razão natural – o ‘aprendizado’.”
PBL: Pois bem, nesse processo é necessário que o professor vire um facilitador e, mais do que ensinar, ele deve mediar. Mediar é ensinar.
Tradicional: Mediar não é ensinar. O juiz não ensina jogadores de futebol a jogar. Parafraseando o próprio São Tomás de Aquino: “[...] assim como se diz que o médico causa a saúde do enfermo cooperando com a natureza, assim também se diz que um homem causa a ciência em outro, cooperando com sua razão natural. E isto é ensinar.”
PBL: Veja, mediar é cooperar. Não há distinção no que falamos.
Tradicional: Há muita!
PBL: O tutor deve ensinar os alunos a aceitarem as verdades diferentes, as dificuldades dos colegas; ensinar a tecer comentários e opiniões sobre casos clínicos de modo a respeitar as divergências que ocorram e construir um saber coletivo, por meio do diálogo. O facilitador é uma espécie de observador pronto a guiar os alunos caso fujam do assunto.
Tradicional: Primeiro que não existem “verdades diferentes”. Existem dúvidas sobre o que é a verdade de um caso, mas isso não significa que tudo é aceitável. Segundo, o aprendizado não pode brotar de onde não há terreno propício para isso. Um cego guiando outro cego não devolve a visão a nenhum deles. A ideia central de Barrows era simples e radical ao mesmo tempo: o problema deve vir primeiro. Não como exercício de aplicação do que foi ensinado, mas como ponto de partida que gera a necessidade de aprender. Acontece que o problema pode vir primeiro usando o meu método. A questão maior não é, portanto, se a patologia precede a fisiologia no método de ensino. O que de fato nos diferencia é justamente isso: o outrora professor se torna um facilitador.
No livro que Barrows escreveu dando origem a você, ele descreve que seu sucesso depende de duas condições inegociáveis: estudantes disciplinados o suficiente para trabalhar com problemas abertos, e professores com habilidades específicas para orientar e guiar esse processo sem dar as respostas.
Parece lindo, mas a consequência óbvia disso na prática, era previsível: faculdades substituem professores experientes por tutores recém-formados e, eventualmente, sem formação médica, sem experiência prática alguma. Isso reduz custos para as faculdades enquanto as mensalidades seguem exorbitantes.
Meu caro, é tática. Essa baderna que você propõe cheio de pompa é tão danosa que nas academias americanas você foi rapidamente abandonado.
PBL: Abandonado pois os professores não aceitaram. O que de fato aconteceu nos EUA não foi abandono – foi diluição. Em 2003, 70% das escolas médicas americanas usavam PBL nos anos pré-clínicos. Das 30% que não usavam, 22% já haviam usado no passado. Esse dado revela algo preciso: houve um ciclo de adoção, erosão e abandono – mas o mecanismo não foi ideológico, foi institucional. Escolas que migraram para PBL e currículos baseados em casos descobriram rapidamente que, depois que o entusiasmo inicial da mudança curricular arrefecia, mobilizar 10, 12, 15 professores a cada exercício didático, ano após ano, tornava-se extraordinariamente problemático. O professor tradicional não sabia ser facilitador – e não queria aprender.
Tradicional: Claro, a culpa agora é dos professores antiquados que não souberam se adequar ao revolucionário método PBL. Curiosamente, isso aconteceu com diversos professores, de diferentes instituições e de diferentes países. As três primeiras escolas médicas da Malásia que adotaram PBL desde a fundação relataram resistência docente após a formatura da primeira turma. Uma escola mais antiga que incorporou PBL retrocedeu à tradição quando professores-chave saíram. Por essa mesma razão, um programa especial de PBL na China foi encerrado. Na Noruega, a oposição docente a um novo currículo integral de PBL resultou na implementação de uma versão parcial.
Harvard é o caso mais revelador dessa tensão. O New Pathway de 1987 foi a grande aposta PBL de Harvard – e foi parcialmente desmantelado décadas depois.
Os professores sabiam que o método era falho; os professores reconheciam que além das duas exigências que Barrows colocou – a maturidade do aluno disciplinado e a necessidade do facilitador ter notório saber sobre o assuno – era necessário entender o mínimo de ontologia e epistemologia para reconhecer que a arte de educar exige um professor ativo e não um "facilitador passivo".
PBL: Para termos sucesso, conforme a expectativa de Barrows, exigimos uma transformação institucional total – do papel do professor, do sistema de avaliação, da cultura departamental, da estrutura de tempo e espaço. Nos EUA, o que aconteceu foi que as escolas pegaram a embalagem – pequenos grupos, casos clínicos, tutores — sem aceitar o conteúdo radical: transferir o protagonismo da aprendizagem para o estudante. O resultado foi exatamente o PBL sem PBL. Ainda que o custo caísse, a qualidade caiu e, de fato, todos tiveram que rever o processo. Agora imagine a economia agregada que nosso método pode proporcionar!
O custo é uma variável importante, especialmente em países onde a expansão da formação médica é urgente. Se as faculdades não usam desta economia para outras otimizações a culpa não é minha, do PBL. Com roteiros bem elaborados, posso ser aplicado mesmo nos casos excepcionais onde os tutores não têm formação médica.
Tradicional: E é justamente aí que mora o perigo. Os mesmos personagens que supostamente não aproveitam da economia gerada contigo para otimizar o curso são os que defendem seu método. Está difícil entender que você é um instrumento na mão de muita gente? Seu método pressupõe que um grupo de estudantes, muitos recém-saídos do ensino médio, tenha maturidade para conduzir o próprio aprendizado. Mas entregar o carro da formação médica a quem ainda nem tem idade mental para iniciar a autoescola é temerário. Desculpe, mas o nível da educação no ensino médio, no Brasil, tem caído significativamente e o filtro para ingressar numa faculdade, outrora chamado de “vestibular”, é, hoje, praticamente inexiste. Aliás, os mesmos agentes que destruíram a educação no ensino médio são os que fomentam o PBL na educação médica. Tudo caldo do famigerado construtivismo de Pyaget, Paulo Freire e Vygotsky.
PBL: Mas não é assim que deveria funcionar. Você está reduzindo a nossa proposta a descasos eventuais. O tutor deve estimular a busca ativa, guiar discretamente...
Tradicional: Acho que você que reduz o que reconhece como método tradicional a descasos eventuais. Você e seus defensores, para ganharem espaço, alegaram que o método tradicional se resume a um professor congelado em cima de um tablado e cuspindo informações num quadro. Sem dúvida eu afirmo que isso ocorre e é um problema real, mas a correção é passível de ocorrer por simples cobrança do professor e/ou melhor seleção do profissional, inclusive valorizando sua hora trabalhada conforme sua competência em lecionar na sala de aula.
O que tento explicar é que quando o “tutor” realmente domina o conteúdo, tem experiência sobre o tema debatido, conduz com firmeza, interfere com propriedade, e guia a discussão de forma robusta, o que temos aí não é PBL. É o método tradicional disfarçado de PBL. Só não está com giz na mão. Mas está fazendo o que sempre fizmos: ensinando com autoridade, com profundidade, com propósito. Não se trata da forma – quadro negro ou rodas de discussão – mas da essência. A diferença entre nós não está no formato da sala nem no fato de ter ou não um problema real para guiar o estudo da aula. A diferença está na direção de onde parte o saber. Para nós, defensores do método tradicional, deve partir do mestre. Para ti, deve partir do aluno – leia-se: da ausência do professor.
PBL: Veja, o tutor é um professor. Você está reduzindo o papel do tutor como se ele não tivesse importância. Nossa proposta é ganhar no engajamento, no pensamento crítico e, sim, na autonomia do aluno, autonomia essa que será necessária na vida profissional. Como você mesmo reconhece, somos instrumentos no aprendizado dos alunos.
Tradicional: Métodos são meios e meios costumam ser instrumentos para alguma finalidade. A minha é manter o professor na vanguarda do aprendizado. Autonomia se conquista gradualmente. Essa maturidade geralmente só chega no internato ou na residência – fases que, curiosamente, ainda funcionam justamente por manterem o tripé que você abandona: conteúdo, professor e autoridade. E que ironia! O internato e a residência são também aprendizados baseados em problemas, sim. Mas ninguém os chama de PBL pois ali o problema é abordado por quem sabe. Por professores. Por preceptores de verdade. Os erros de eventuais professores do método tradicional não podem servir de desculpa para uma revolução pedagógica. Rompantes assim costumam servir a outros propósitos que não a melhoria da educação. Rompantes assim são instrumentos para outras finalidades opostas à liberdade e autonomia. São instrumentos de poder e controle com verniz de liberdade.
PBL: Então você defende que eu só funcionaria se voltasse a ser você, porém revendo o estilo e formato da aula? Para você, quando meu método funciona, é porque apliquei o seu método. (Risos)
Tradicional: Eu defendo que não se constrói conhecimento clínico sem uma base sólida, e essa base exige um mestre que a fundamente. Alguém que seja mais do que uma boia solta: alguém que seja barco. Que leve o aluno com segurança entre as tormentas da incerteza diagnóstica, da ética médica, da farmacologia, da fisiopatologia. Seu método pode dar certo a nível pontual e individual, sem dúvida. Nada impede de haver – e há – jovens bem maduros e disciplinados logo nos primeiros anos da faculdade, mas até mesmo esses podem ter dificuldades se o "facilitador" não tiver experiência com o problema em discussão.
PBL: Você é muito radical. Veja, estou sendo polido contigo. As faculdades de medicina, especialmente no Brasil, adotaram-me como símbolo de modernidade pedagógica justamente para tornar o estudante mais ativo, mais reflexivo... No entanto, reconheço, esse movimento ocorre em paralelo ao notório declínio da formação médica, em especial no ciclo básico. Com autocrítica assumo que muitos estudantes chegam ao internato e à residência médica com profundos déficits em fisiologia, imunologia, farmacologia e anatomia patológica. Mas não temos culpa se boa parte do alunado que ingressa numa faculdade hoje não compreende seu papel enquanto estudante de medicina.
Tradicional: Veja, você me chamou de radical, mas é você que sutilmente propôs o meu fim. Venenos são servidos em taças de ouro. Em defesa da verdade não há meio-termo. Sobre a culpa, realmente, não é sua, mas é do mesmo construtivismo que seus pais defenderam nas escolas do ensino médio e agora querem aplicar no ensino médico. Lá o resultado foi esperar que a faculdade promovesse a maturidade que ele não ofereceu antes. Aqui, nos cursos de medicina, é esperar que a residência médica promova a maturidade que a graduação não ofereceu. O modus operandi é o mesmo e já sinto o cheiro de sua trupe invadindo os programas de residência médica...
PBL: Não seja dramático. Não desejamos o seu fim, mas sua aposentadoria.
Tradicional: Se nós somos tão ruins assim, por que a formação médica das últimas décadas, concomitante ao crescimento de vocês nas universidades, deteriorou a ponto de hoje muitas faculdades se esconderem sob a alcunha de “método misto”? Por qual motivo os cursinhos para provas de residência usam do método tradicional e vêm sendo a última trincheira para um bom aprendizado? Converse com os alunos e pergunte se eles aprenderam mais medicina durante os anos de graduação ou se em um ano assistindo aulas desses professores de cursinhos pré-residência. Você já refletiu que é natural do ser humano – e os estudantes de medicina não seriam diferentes – precisar de um mestre; uma autoridade intelectual? Você não desconfia que a carência de mestres de verdade nas cátedras é uma grande culpada da proliferação de coachs e mentores nas redes sociais?
PBL: Vai defender os “coachs”?
Tradicional: Sócrates foi "coach"de Platão e este de Aristóteles. Aristóteles foi “coach” de Alexandre, o Grande. Você dispensaria esses “coachs” alegando serem eles "tradicionais"?
PBL: Mas rapaz, era só o que me faltava. O método tradicional defendendo o “coachismo” e usando como exemplo filósofos da Grécia antiga...
Tradicional: Defendo a necessidade de existir a relação de confiança e vontade entre aluno e professor; entre discente e docente. Se a finalidade da relação for em prol do Bom, Belo e Verdadeiro, que tenhamos mais “coachs”. Todavia, se for credencialismo e charlatanismo pintados de “humanismo” como muitos dos personagens que defendem você, realmente estamos perdidos.
PBL: Que bom que falou de humanismo... Eis o que se encontra no método PBL.
Tradicional: O culto ao homem é, sem dúvida, uma carranca que cobra alto preço. Maquiagens servem mais para esconder defeitos do que para enaltecer belezas!
PBL: De fato compreendo seus pontos. Atualmente o método misto tem se mostrado promissor e eu até posso reconsiderar sua aposentadoria.
Tradicional: Não. O caminho não é fusão. O que deve haver, sim, é uma cobrança firme e categórica para que as faculdades valorizem os professores; cobre deles aquilo que deles se espera: comando, exemplo, inspiração, conhecimento. O professor não é um facilitador. O professor não é acessório. Não é mediador. Ele é essencial. Ele é o centro de onde irradia a luz que deve atualizar a potência do aluno. O professor é aquele que desperta a vontade adormecida do aluno com autoridade e sacrifício. O aluno é aquele que, confessando seu quinhão de ignorância, humildemente inclina-se em obediência ao seu professor por confiar que nele encontrará os ventos necessários para mover sua alma.
PBL: É possível que o tempo nos mostre que estamos errados, mas nunca se esqueça: são provocações como esta que podem sacudir o convés e fazer você despertar para os erros que vinha cometendo.
Tradicional: Sim, o Mistério da Iniquidade nos ensina que eventuais desacertos podem ter propósitos maiores. Espero que qualquer professor, se quer ser professor e mentor de alguém, que tenha experiência no assunto e amor no professar. Até mais.
Fim!
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